Um Sistema Operativo Diferente
Quem diz isto costuma dizê-lo com vergonha.
Como quem confessa um defeito de carácter que deveria ter corrigido há muito tempo, e não corrigiu, porque no fundo é preguiçoso, ou irresponsável, ou simplesmente não se esforça o suficiente.
Ouviu-o na escola.
Ouviu-o em casa.
Ouviu-o, sobretudo, de si próprio, todos os dias, durante anos.
E talvez seja essa a primeira coisa a dizer sobre a PHDA no adulto: a maior parte do sofrimento não vem da atenção.
Vem da história que a pessoa construiu para explicar a atenção.
Há uma imagem que me parece mais justa do que qualquer definição.
Pense em dois computadores com sistemas operativos diferentes.
Ambos funcionam.
Ambos são capazes de coisas extraordinárias.
Mas se tentar correr num deles um programa escrito para o outro, o resultado é lentidão, bloqueios, e a conclusão errada de que a máquina é má.
A máquina não é má.
Está a correr o programa errado.
A PHDA no adulto raramente se parece com a criança do manual, a que não para quieta na sala de aula.
Parece-se com o adulto que tem três projetos começados e nenhum acabado.
Com a pessoa que chega sempre atrasada, apesar de sair sempre a horas na sua cabeça.
Com quem se esquece do que foi fazer à cozinha, mas lembra-se de um pormenor de uma conversa de há dez anos.
Com quem fica quatro horas seguidas absorvido numa coisa que lhe interessa e não consegue passar vinte minutos numa coisa que não interessa, mesmo quando essa coisa é urgente.
Não estou a dizer que qualquer distração é PHDA.
Seria uma leitura preguiçosa, e uma leitura que faz mal a quem realmente a tem: transforma um diagnóstico sério numa desculpa de conversa de café.
Toda a gente se distrai.
Toda a gente procrastina.
A diferença está na consistência, na intensidade, e no preço que a pessoa paga, ano após ano, por um padrão que não escolheu.
O mecanismo importa, porque é ele que retira a culpa do lugar onde foi colocada.
O cérebro com PHDA não tem um problema de atenção.
Tem um problema de regulação da atenção.
Esta frase merece uma pausa.
Não é falta de atenção; é dificuldade em decidir para onde ela vai.
A atenção existe, e existe em abundância; o que falha é o interruptor.
Sem urgência, novidade ou interesse, o sistema não ativa.
Com urgência, novidade ou interesse, ativa de tal forma que a pessoa desaparece dentro da tarefa e esquece-se de comer.
É por isso que o adulto com PHDA faz em duas horas, na véspera, o que não conseguiu fazer em duas semanas.
Não é preguiça a fingir de talento.
É um motor que só arranca com um certo tipo de combustível.
O tempo funciona de forma diferente também.
Para a maioria das pessoas, o tempo é uma linha: há o agora, há o daqui a uma hora, há o daqui a uma semana, e cada ponto tem um peso.
Para quem tem PHDA, o tempo tende a ter dois estados.
Agora.
Não agora.
E tudo o que está em “não agora” tem, na prática, o mesmo peso: nenhum.
Até que passa para “agora”, normalmente tarde de mais, e a pessoa volta a concluir que é irresponsável.
Talvez a parte menos conhecida, e mais dolorosa, seja a emocional.
Não está nos cartazes.
Mas está em quase todas as consultas.
A reação desproporcionada a uma crítica pequena.
A dificuldade em recuperar de uma frustração que outros esqueceriam em minutos.
A sensibilidade à rejeição, real ou imaginada, que faz um “depois falamos” soar como uma sentença.
Não é falta de maturidade.
É um sistema de regulação emocional que corre no mesmo sistema operativo, com a mesma dificuldade em travar.
Há uma pergunta que vale a pena fazer, e que muda a conversa.
Não é “o que é que eu tenho de errado?”.
É “que estrutura é que este sistema precisa para funcionar?”.
Porque a resposta existe.
Existe na avaliação clínica rigorosa, que distingue PHDA do que se parece com ela e muitas vezes coexiste com ela: a ansiedade, a depressão, o sono que nunca chegou a ser sono.
Existe na medicação, quando faz sentido, e faz sentido mais vezes do que o medo que a rodeia sugere.
Existe na construção paciente de sistemas externos que fazem por fora o que o cérebro não faz por dentro.
E existe, sobretudo, numa mudança de leitura.
Muitas das pessoas mais criativas, mais rápidas e mais capazes que conheço têm PHDA.
O que partilham não é um defeito.
É um sistema que nunca recebeu o manual certo.
O objetivo nunca foi apagar quem a pessoa é.
É dar-lhe a estrutura para, finalmente, o conseguir ser.
“Eu sei o que tenho de fazer. Só não consigo começar.”
Talvez.
Ou talvez só ninguém lhe tenha explicado ainda como é que o seu sistema arranca.
Eu sei o que tenho de fazer. Só não consigo começar.